Teste E-Clutch Honda Transalp e Hornet 750 - A Toque de Caixa

Percorremos as reviradas estradas do interior do Sotavento Algarvio com as versões 2026 das Honda Transalp e Hornet 750, agora equipadas com a mais recente versão do Honda E-Clutch: o sistema de embraiagem controlada eletronicamente, aplicado à convencional caixa de velocidades manual

Texto: Henrique Saraiva

Texto: Henrique Saraiva

A expressão popular “A Toque de Caixa” tem origem remota no meio militar e significa hoje que algo deve ser feito com urgência, rapidez, ou de imediato. 

Noutros tempos, quando não existiam os meios de comunicação à distância como os conhecemos, as manobras militares, principalmente no campo de batalha, implicavam que as decisões e as iniciativas dos comandantes tinham que ser executadas prontamente e como tal, comunicadas de forma clara e precisa a todos os combatentes espalhados por uma vasta área. Isso era feito através de “toques” cujo significado era por todos conhecido e eram utilizados instrumentos cuja “voz” fosse audível: por corneta nalguns casos, ou por tambores… as caixas, noutros. Daí a origem do “a toque de caixa”!

Se a “caixa” que agora nos interessa é a caixa de velocidades, facilmente percebemos que o “toque” que se pretende imediato, eficaz e tão rápido quanto a tecnologia permite, é no pedal, para engrenar uma nova mudança. E esse é o papel que o E-Clutch otimiza de forma significativa.

FOMOS À APRESENTAÇÃO INTERNACIONAL

A Honda reuniu a imprensa internacional no Algarve para nos apresentar as novas versões (YM26) das já bem conhecidas TRANSALP e HORNET 750. 

Em boa verdade, também o sistema E-Clutch não é novidade. A Honda já equipa no nosso mercado as CB650R e CBR650R e em breve também chegarão as versões E-Clutch das 500cc. Todavia… aqui há algo diferente!

A sessão técnica, que antecedeu a experiência de condução destas motos, serviu para nos explicar detalhadamente o funcionamento do sistema e a sua integração nestes modelos, incidindo sobretudo no motor bicilíndrico de 755cc da Transalp, que inclui a adopção do acelerador eletrónico TBW (Throttle by Wire). 

De assinalar, como é habitual na marca, a presença dos engenheiros japoneses responsáveis pelo desenvolvimento das motos e dos sistemas que as integram, sempre disponíveis para prestarem os esclarecimentos mais pormenorizados, pois também nos acompanharam durante os testes em estrada, o que ainda lhes permite a recolha das opiniões dos diversos jornalistas.

Pode ler aqui a entrevista com Junya Ono, um engenheiro de referência e o Large Project Leader (LPL) da Honda Motor Co., Ltd., amplamente reconhecido por liderar o desenvolvimento do inovador sistema Honda E‑Clutch.


AFINAL, O QUE É O HONDA E-CLUTCH?

Simples! É uma embraiagem controlada eletronicamente acoplada a uma convencional caixa manual de 6 velocidades. 

Ou seja, automatiza o processo de atuação sobre a embraiagem (que salvo raras excepções, não acrescenta valor à experiência de condução… mas até isso está previsto!) e mantém bem vivo o prazer, a alma e o controlo de uma transmissão manual. Continuamos a usar o pedal de mudanças mas dispensamos a utilização da manete de embraiagem (que continua funcional).

Vamos aos pormenores: 

Este sistema integra 2 pequenos motores elétricos ligados à embraiagem e possui uma central eletrónica (ECU - Electronic Control Unit), cujos sensores leem:

  • as rotações do motor, 

  • a posição do acelerador, 

  • a velocidade da moto, 

  • a mudança engrenada e 

  • a pressão exercida sobre o pedal de mudanças

É em função destes parâmetros que a ECU decide quando e como operar a embraiagem.

Quando o motociclista atua sobre o pedal, o sistema deteta a intenção de mudar de relação e desengata automaticamente a embraiagem, ajusta a injeção de combustível e a ignição, engrena a nova mudança e volta a engatar de novo a embraiagem.

Complexo? Talvez… mas apenas para o sistema. Porque para o condutor basta exercer uma pequena pressão sobre o pedal no sentido em que quer engrenar a nova mudança. Tudo acontece em milissegundos… poucos milissegundos. 

E atenção! As passagens de caixas são efetuadas a qualquer RPM, parada ou “a abrir”, seja “para cima” ou “para baixo”. Entram sempre!

É importante referir, por ser diferenciador face aos outros modelos da marca e por otimizar o funcionamento do E-Clutch, a ligação deste ao acelerador electronico TBW que permite a integração com os modos de condução disponíveis em cada uma das motos, o que potencia a utilização destes. 

O TBW efetua o ajuste automático da aceleração nas reduções, para sincronizar as rotações com a relação de caixa seguinte, controla com precisão a entrega de potência de acordo com a abertura do acelerador e ajusta as configurações da embraiagem automática na interação com o controlo de tração (HSTC).

Se for para uma mudança superior, e eventualmente a roda traseira estiver a patinar, o sistema desengata totalmente a embraiagem para permitir que a mudança ocorra. Se a roda traseira perder o contacto com o solo tal é detetado instantaneamente, através do cálculo da diferença de velocidade da roda traseira e da roda dianteira, pelo que a embraiagem atua para corrigir.

O sistema prevê a regulação da pressão a exercer no pedal de mudanças: hard, medium ou soft, para melhor se adaptar ao estilo de condução de cada um.

Outra característica do sistema Honda E-Clutch é que não necessitamos de embraiagem para arrancar ou parar: o motor nunca vai abaixo…porque o sistema desembraia automaticamente. O conforto e um acréscimo de segurança em circulação urbana estão assim assegurados.

Todavia, a Honda não esqueceu os “puristas”. Aqueles para quem a utilização da manete de embraiagem é parte integrante da sua forma de conduzir: o sistema E-Clutch não só pode ser desativado, como também permite a utilização casuística da manete de embraiagem, desligando-a no momento e reativando-se o sistema automáticamente logo de seguida (após 5 segundos a baixas RPM ou apenas após 1 segundo a RPM altas).

O sistema E-Clutch está localizado no lado direito do motor. Fica um pouco destacado, mas a sua posição não interfere com a ergonomia do condutor e como todo o conjunto está pintado de preto, também sob o ponto de vista estético não colide com as linhas da moto.

E-CLUTCH vs QUICK-SHIFTER

Mas então, o E-Clutch não é um quick-shifter?

É! Mas é muito mais, porque está disponível em todas as rotações (de 0 até ao limitador), é utilizável tanto com o acelerador aberto ou fechado, a engrenagem das mudanças é mais suave e principalmente, muito mais rápida. E não sentimos o impacto da mudança de relação de caixa qualquer que seja a rotação ou velocidade.

É muito mais eficaz e muito mais eficiente. O intervalo de tempo que vai desde que o cérebro do condutor envia o sinal nervoso ao pé esquerdo, e este atua levemente sobre o pedal para engrenar a mudança desejada, está reduzido ao mínimo.

COMO FOI A EXPERIÊNCIA DE CONDUÇÃO?

Para avaliarmos o trabalho realizado pela engenharia da Honda, nada como percorrer as sinuosas estradas do parque de diversões motociclístico que é a Serra do Caldeirão.

Pela manhã experimentámos a Transalp num percurso estradista e com uma incursão de alguns quilómetros fora de estrada, adequado ao perfil de utilização típico deste modelo: a viagem.

À tarde, foi o regresso à base com a Hornet. Desfrutámos da sua agilidade por estradas onde as retas são fenómenos quase desconhecidos… ou seja, no seu habitat natural!

NA HONDA TRANSALP 750 E-CLUTCH

Se a grande novidade deste modelo para 2026 é a adoção do E-Clutch, merece também destaque a melhoria realizada ao nível das suspensões. Para lá de outras pequenas alterações.

Vou focar-me nestes aspectos, pois há cerca de um ano, a Andar de Moto publicou um contacto com esta moto e cumpre salientar que subscrevo na íntegra o que então foi dito. 


A fazer jus ao título de então, “Elevado Potencial” contento-me em acrescentar a palavra “Confirmado”!

Vamos, por isso, ao que difere!

O E-Clutch já foi sobejamente explicado atrás e é a melhoria mais relevante. Caracteriza o modelo de tal forma que a Honda apenas colocará à venda no mercado ibérico a Transalp equipada com este sistema.

Em andamento mostra de imediato a sua competência. O engrenar da primeira é suave, o arranque é progressivo em resposta ao rodar do acelerador e as passagens de caixa são eficazes, suaves e rapidíssimas, independente da forma mais ou menos agressiva que o condutor pretenda. É outro nível!

A integração com o TBW e os seus modos de condução é excelente e assegura-nos sempre a performance que queremos sem nunca mostrar qualquer tipo de comportamento inesperado ou suscetível de afetar a condução. E em estradas sinuosas permite que desfrutemos, pois em baixos e médios regimes temos sempre potência e tração disponíveis. 

Esta versão 2026 vê as suas suspensões melhoradas otimizando o que já era um bom desempenho: quer a forquilha, quer o amortecedor traseiro, contam com regulação do amortecimento em compressão e extensão. 

Ou seja, com a possibilidade de o condutor adaptar a suspensão da Transalp ao seu gosto, e a utilização do modo de condução adequado - que tanto pode ser o pré-definido “Gravel” como a configuração personalizada de um dos modos “User” - a polivalência da utilização da Transalp está garantida, com o destaque para as capacidades em fora de estrada.

NA HONDA HORNET 750 E-CLUTCH

Se há uma expressão para definir esta Hornet com E-Clutch é: “diversão, diversão e cada vez mais diversão!”.

Há cerca de 3 anos, o Andar de Moto publicou o teste a esta moto cujo título era “Ferroada na Tradição”. Lá foi afirmado pelo autor da prosa que “A nova Hornet pôs-me um sorriso nos lábios desde os primeiros metros”. Eu assino por baixo!

Também neste caso, a Honda evoluiu a versão anterior (a que então foi testada e que em 2025 já tinha tido uma atualização) com a inclusão do E-Clutch: novo farol duplo, configurações de suspensão revistas e novo painel TFT de 5”. Ou seja, o que já era considerado bom, foi melhorado e agora otimizado.

Se existe tipologia de moto em que a capacidade de efetuar passagens de caixa de forma eficaz e rapidíssima, são as do segmento em que a Hornet 750 E-Clutch se insere: as street-fighters. Pessoalmente não aprecio esta designação…até porque considero que onde estas motos melhor expressam o seu potencial não é em ambiente urbano, mas sim numa estrada de montanha tão revirada e sinuosa quanto consigamos encontrar.

E foi precisamente esse o terreno que pisámos. 

A adoção do E-Clutch, com a vantagem do “disparo” no arranque e de nas paragens não ser necessário tocar na embraiagem, favorecendo ainda a rapidez com que se consegue subir na rotaçã, torna a Hornet 750 E-Clutch ainda mais ágil, veloz e entusiasmante. A integração é perfeita.

Aqui convém realçar algo que também já foi mencionado anteriormente na Transalp. Este motor (obviamente adaptado à tipologia da Hornet) exprime-se em todo o seu potencial nas baixas e principalmente nas médias rotações e entrega o binário de forma imediata, o que a torna muito ágil em saídas de curva e também nas ultrapassagens urbanas.

A Hornet 750 será vendida na Península Ibérica apenas na versão E-Clutch, mas como já referimos existe a possibilidade de fazer bypass à embraiagem electrónica, pelo que o seu proprietário pode conduzir a sua moto da forma que melhor lhe convier em cada momento. A inclusão do sistema E-Clutch acrescenta apenas 4 kg ao peso total da máquina. 

A outra novidade é a inclusão de uma carenagem inferior totalmente nova que realça o estilo agressivo da moto, integrando-se com o depósito e a carenagem frontal,  melhorando a estética e a aerodinâmica.

A Serra do Caldeirão é um autêntico festim motociclístico. E as marcas, particularmente a Honda, escolhem-na amiúde para as apresentações e testes das suas novidades. Foi o caso agora. E não poderia ter sido melhor escolhida para esta ocasião.

Conduzir a Hornet nas curvas encadeadas destas estradas é um deleite para os sentidos e quando cheguei ao destino, o sorriso era certamente de orelha a orelha! Que grande ferroada (não na tradição, mas sim na adrenalina!).

EM RESUMO

Se estes dois modelos - a Transalp e a Hornet 750 - já eram muito competitivos nos segmentos respetivos, com a qualidade e características que são a imagem de marca da Honda, agora com estas novidades - o E-Clutch em ambas e as novas suspensões na trail - a proposta de valor da marca nipónica está verdadeiramente reforçada.

Ambos os modelos chegarão ao mercado no mês de maio e os preços ainda não são conhecidos (mas não se esperam aumentos substanciais face aos atualmente praticados). 

Andámos a toque de caixa! Mas valeu a pena!


andardemoto.pt @ 25-3-2026 07:59:00 - Henrique Saraiva


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